A obesidade é um fator de risco para o desenvolvimento e agravamento de doenças crónicas. O aumento da literacia alimentar e nutricional pode ajudar a combater este problema de saúde pública.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a obesidade pode ser definida como a acumulação anormal ou excessiva de gordura corporal que apresenta um elevado risco para a saúde do indivíduo 1.

O excesso de peso ou obesidade são definidos consoante os valores de Índice de Massa Corporal (IMC), um índice estatístico utilizado para classificar a população consoante o seu peso atual. Um IMC superior a 25kg/m2 é considerado excesso de peso e IMC superior a 30kg/m2 é considerado obesidade 2.

Qual a prevalência da obesidade em Portugal?

Os dados do Inquérito Nacional de Saúde referentes ao ano 2019 mostram que 53,6% da população adulta portuguesa apresenta excesso de peso (pré-obesidade ou obesidade) e 16,9% apresenta obesidade 3.

Em Portugal, a prevalência mantém uma tendência crescente, embora recentemente se comece a verificar uma estagnação 3. Por outro lado, o excesso de peso e obesidade infantil tem vindo a apresentar consistentemente um decréscimo, consequente também dos esforços conjuntos na adoção de medidas de prevenção e combate à obesidade infantil 4.

Os dados mais recentes da OMS revelam que, globalmente, 39% dos adultos com mais de 18 anos apresentam excesso de peso (o que corresponde a mais de 1,9 mil milhões de indivíduos) e que cerca de 13% da população mundial é obesa 1.

Comunidade científica pede revisão da definição de obesidade

A sua crescente prevalência e associação a doenças crónicas não transmissíveis, promoveu na comunidade científica o debate sobre a necessidade de alterar a definição de obesidade.

A World Obesity Federation destaca que, ao determinar que a obesidade é uma doença crónica de origem multifatorial, é possível remover o estigma de que os pacientes são os únicos responsáveis pelo seu excesso de peso, focando a atenção nas estratégias de gestão da doença e mostrando que, se for possível tratar a obesidade com sucesso, a maior parte das patologias associadas serão também eliminadas 5.

Mulher obesa sentada no sofá

Obesidade é um fator de risco para outras doenças

A obesidade constitui um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento e agravamento de doenças crónicas não transmissíveis, como doença cardiovascular, diabetes Mellitus tipo 2 ou cancro 6.

Para a doença cardiovascular

A doença cardiovascular está fortemente associada ao excesso de peso. Estudos relatam que indivíduos obesos apresentam 5 vezes maior risco de desenvolver hipertensão arterial e estão associados a um aumento do risco de Acidente Vascular Cerebral.

Os eventos cardiovasculares na população obesa podem ainda estar associados ao desenvolvimento de dislipidemia, ou seja, aos valores elevados de colesterol total e colesterol LDL característicos do excesso de gordura corporal 6, 7, 8.

Para a diabetes tipo 2

A Diabetes Mellitus tipo 2 é outra patologia fortemente associada ao excesso de peso. A evidência refere que 90% dos indivíduos com diabetes tem um IMC superior a 23 kg/m2. Mesmo em obesos metabolicamente saudáveis (ou seja, com valores normais de glicemia, pressão arterial ou triglicéridos), há um aumento em cerca de 4 vezes do risco prospetivo de desenvolver diabetes 9.

Para cancro e outras condições clínicas

O excesso de peso está ainda associado a um aumento do risco relativo de alguns tipos de cancro, a esteatose não hepática, a osteoartrite e a casos de infertilidade ou impotência sexual 10.

Médica a medir tensão a paciente

O impacto da obesidade na COVID-19

A evidência científica tem vindo a associar múltiplos fatores de risco quer à gravidade dos sintomas, quer à mortalidade observada em pacientes com COVID-19.

Estudos têm demonstrado que a idade e a presença de doenças crónicas associadas ao excesso de peso (como diabetes ou doenças cardiovasculares) podem estar associados ao agravamento dos sintomas da COVID-19 ou ser preditores de mortalidade 11, 12, 13.

Porém, a maioria dos estudos associados à COVID-19 não reporta a obesidade como fator de risco devido à falta de informação sobre o peso corporal ou o IMC dos doentes infetados 11.

As limitações dos estudos e a possibilidade do excesso de peso poder aumentar a suscetibilidade à infeção

É importante destacar que, sendo uma pandemia relativamente recente, a evidência científica existente é limitada e pouco robusta. Num estudo com 383 participantes com COVID-19, o excesso de peso e a obesidade foram associados, respetivamente, a um risco aumentado de 86% e de 142% de pneumonia severa 14.

Um outro estudo com 124 doentes com COVID-19 revelou que, independentemente da presença de outras comorbilidades, a necessidade de ventilação mecânica invasiva foi associada a um IMC superior a 35kg/m2 15.

Os pacientes obesos, ao apresentar frequentemente disfunção respiratória, estão mais predispostos ao desenvolvimento de pneumonia. Adicionalmente, a presença de hipertensão, dislipidemia ou resistência à insulina caraterística de excesso de peso predispõe os indivíduos a eventos cardiovasculares ou resposta imunitária comprometida.

Todos estes fatores poderão aumentar a suscetibilidade do indivíduo à infeção e contribuir para a severidade da COVID-19 16, 17.

Mulher obesa a fazer exercício físico

Como prevenir e combater a obesidade?

Sendo a obesidade um dos principais problemas de saúde pública, torna-se urgente a adoção de medidas de prevenção e combate a esta patologia.
Apesar de ser uma doença de causa multifatorial, a alimentação inadequada e o sedentarismo surgem como alguns dos seus inquestionáveis e principais determinantes.

Assim, a abordagem necessária implica a promoção de um estilo de vida saudável, o aumento da literacia alimentar e nutricional e ainda a implementação de políticas de saúde pública adequadas 3.

Literacia alimentar e nutricional pode ser fator-chave

A melhoria da qualidade e acessibilidade da informação alimentar e nutricional disponibilizada aos cidadãos é um dos fatores-chave para a prevenção e combate à obesidade.

Indivíduos informados e capacitados tendem a fazer escolhas alimentares mais saudáveis. Neste sentido, destacam-se as campanhas desenvolvidas para a promoção de uma alimentação saudável, a utilização de modelos de rotulagem nutricional simplificada (como o semáforo nutricional) e ainda a regulação da publicidade alimentar dirigida a crianças 18, 19.

A modificação da oferta e do ambiente alimentar no qual os indivíduos estão integrados é uma medida de combate à obesidade promissora. A implementação de programas que promovam uma alimentação escolar saudável, o desenvolvimento do imposto especial sobre bebidas açucaradas e ainda o plano para a reformulação dos produtos alimentares são algumas das principais iniciativas implementadas em Portugal 3.

Por fim, destaca-se ainda o papel essencial dos profissionais de saúde não só no tratamento de patologias crónicas associadas à obesidade, mas também na prevenção das mesmas, através da promoção de uma alimentação saudável e da prática de exercício físico regular 3.

Conclusão

A associação entre a obesidade e o desenvolvimento ou agravamento de outras patologias crónicas tem vindo a ser destacada e suportada cientificamente ao longo de vários anos.

Recentemente, o novo coronavírus veio sublinhar fortemente a importância de combater o excesso de peso e obesidade. Numa época de pandemia, em que o agravamento de sintomas e a mortalidade associada à COVID-19 é uma das principais preocupações na comunidade médica, política e científica, torna-se urgente a adoção de medidas que permitam potenciar um estilo de vida saudável.

Assim, com a redução de fatores de risco como a obesidade ou patologias cardiometabólicas será possível, potencialmente, melhorar não só as complicações associadas à infeção pelo novo coronavírus, mas também o estado de saúde das populações.

+ Fontes

  1. World Health Organization. Obesity and overweight; 2020. Disponível em https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight
  2. Weir CB, Jan A. BMI Classification Percentile And Cut Off Points. In: StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; July 10, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31082114/ 
  3. Gregório MJ, Sousa SM, Teixeira D. Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável 2020. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2020. Disponível em: https://alimentacaosaudavel.dgs.pt/ 
  4. Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Childhood Obesity Surveillance Initiative COSI Portugal – 2019. 2019. Disponível em: http://www.insa.min-saude.pt/wp-content/uploads/2019/07/COSI2019_FactSheet.pdf 
  5. Bray GA, Kim KK, Wilding JPH; World Obesity Federation. Obesity: a chronic relapsing progressive disease process. A position statement of the World Obesity Federation. Obes Rev. 2017 Jul;18(7):715-723. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28489290/ 
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  9. Twig G, Afek A, Derazne E, Tzur D, Cukierman-Yaffe T, Gerstein HC, Tirosh A. Diabetes risk among overweight and obese metabolically healthy young adults. Diabetes Care. 2014 Nov;37(11):2989-95. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25139886/ 
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