A Doença de Crohn é uma doença intestinal inflamatória, que se pode manifestar em todo o trato digestivo. Conheça-a ao pormenor neste artigo.

Embora não seja totalmente conhecida a origem da doença de Crohn, acredita-se que alterações no sistema imunitário, aliadas a fatores ambientais e hereditários, são responsáveis pelo seu desenvolvimento. Uma vez que a resposta excessiva do sistema imunitário é frequente, considera-se a doença de Crohn como sendo uma doença do tipo auto-imune.

O que é a Doença de Crohn?

A doença de Crohn é uma doença inflamatória crónica que afeta, primordialmente, a porção terminal do intestino delgado (íleo), o intestino grosso (cólon) ou, em muitos casos, ambos.

No entanto, sabe-se que esta doença pode afetar qualquer segmento do tubo digestivo, desde a boca até ao canal anal, sendo frequente a formação de úlceras nas áreas afetadas.

Incidência

Nos últimos anos, a doença de Crohn sofreu um aumento na sua incidência um pouco por todo o mundo. Mulheres e homens são afetados na mesma proporção e pode manifestar-se em qualquer idade, mas geralmente a primeira crise ocorre na segunda ou terceira década de vida.

Mulher com dores no estômago

O que causa a Doença de Crohn?

Não são conhecidas as causas da doença de Crohn, mas estudos efetuados sugerem que disfunções do sistema imunitário produzam uma resposta exagerada na presença de fatores ambientais, alimentares e infecciosos.

Acredita-se, também, que exista uma componente hereditária associada. O tabagismo é igualmente apontado como origem e fator agravante da doença.

Os principais sintomas da doença de Crohn

Os sintomas da doença de Crohn têm uma duração variável, podendo-se manifestar durante dias ou mesmo semanas e melhorarem sem necessidade de tratamento. São eles:

  • Cólicas e dor abdominal;
  • Diarreia crónica (que pode conter muco e vestígios de sangue);
  • Perda de apetite;
  • Perda de peso;
  • Aftas orais
  • Abcessos na região do ânus;
  • Febre.

Mulher deitada no sofá a sentir-se maldisposta

A doença de Crohn pode também manifestar-se além do sistema gastrointestinal, nomeadamente e mais frequentemente::

  • Doenças osteoarticulares;
  • Doenças oculares;
  • Alterações cutâneas.

Uma vez que a doença abrange um vasto leque de sintomas, é necessário o estudo aprofundado destes para que se chegue a um diagnóstico correto.

Sabe-se que a doença de Crohn é intermitente, ou seja, manifesta os seus sintomas de forma irregular e ao longo de toda a vida. No entanto, o mecanismo de desenvolvimento da sintomatologia não é conhecido.

Dependendo da gravidade, estas crises podem variar de moderadas a graves e a sua duração de poucos dias a várias semanas.

A manifestação da Doença de Crohn em crianças

Ao contrário dos adultos em que a doença de Crohn manifesta-se maioritariamente por diarreia intensa e dores abdominais, nas crianças a sintomatologia é diferente. É, por isso, fundamental que os pais estejam atentos às queixas e sintomas da criança para que sejam relatados e avaliados pelo pediatra.

Em crianças, a doença de Crohn manifesta-se sobretudo através dos seguintes sintomas:

  • Atraso no crescimento;
  • Artrite;
  • Febre;
  • Fraqueza;
  • Fadiga.

Menina com sintomas de disfunção intestinal

Como é feito o diagnóstico da Doença de Crohn?

A doença de Crohn apresenta múltiplos sintomas que se manifestam em vários órgãos e de forma diferente entre pacientes. Por isso, o seu diagnóstico nem sempre é fácil.

Frequentemente, outras doenças que afetam o trato gastrointestinal, como a a Colite Ulcerosa ou o Síndrome do Intestino Irritável, são confundidas com a Doença de Crohn. Assim, para fazer o correto diagnóstico da doença são realizados os seguintes passos:

História clínica e exame físico

A primeira etapa do diagnóstico, consiste na análise dos sintomas e queixas sentidas pelo paciente, especialmente quando existe antecedentes familiares de doença de Crohn.

Através da palpação do abdómen, o médico pode ainda identificar eventuais alterações sugestivas da doença.

Análises sanguíneas e fecais

As análises sanguíneas são essenciais para avaliar as alterações metabólicas decorrentes da doença de Crohn tais como a anemia, elevado número de glóbulos brancos, baixa concentração de albumina e nível elevado de proteína C-reativa (PCR).

Muitas vezes, é também solicitada análise às fezes para avaliar a presença de sangue e doseamento de uma proteína inflamatória, a calprotectina..

Exames de imagiologia

Na presença de sintomas como dor abdominal e diarreia frequente, o doente poderá realizar um exame de ecografia abdominal, tomografia computorizada (TC) ou ressonância magnética (RM). Assim, é possível visualizar processos inflamatórios, obstruções ou fístulas que causem os sintomas referidos.

Podem ainda ser realizados estudos radiológicos do sistema digestivo, nomeadamente recorrendo ao uso de contraste oral. Nestes exames, é dado ao paciente um líquido (contraste) que permite visualizar detalhadamente todo o trato gastrointestinal.

Colonoscopia

A colonoscopia é um exame muito utilizado no estudo da doença de Crohn.

Com o auxílio de um aparelho em forma de tubo (colonoscópio) que possui uma pequena câmara na sua extremidade, é possível visualizar em tempo real o interior de todo o cólon e porção terminal do intestino delgado.

Através deste exame, é possível avaliar a gravidade da inflamação e das lesões, detetar complicações da doença e ainda efetuar biópsias que confirmem ou apoiem o diagnóstico.

Médico a preparar colonoscópio para exame

A evolução da Doença de Crohn

A evolução da doença de Crohn não é fácil de prever, uma vez que os sintomas são variadíssimos e as crises afetam de forma diferente cada um dos pacientes.

No entanto, existe uma classificação padrão da doença baseada nos sintomas experienciados. Assim, verifica-se:

Doença leve e moderada

Quando o paciente apresenta diarreia recorrente, acompanhada de dor abdominal, mas consegue realizar a sua vida diária normalmente. Não existe febre, dor abdominal forte, perda de peso acentuada e desidratação.

Doença moderada a grave

Aqui, o paciente apresenta sintomas claros de febre, perda de peso significativa, dor abdominal e sensibilidade, náuseas e vómitos ou anemia. Geralmente, os pacientes que não valorizam e não tratam a doença leve, podem ver o quadro clínico agravado para este estado.

Doença fulminante

Neste estado de doença, o paciente apresenta obstrução intestinal, perda de peso grave, febre, náuseas e vómitos persistentes.

O tratamento da Doença de Crohn

Para controlo geral da doença de Crohn, é frequente a alteração de hábitos alimentares e adaptação da dieta, principalmente durante as alturas de crises.

Para os pacientes que sofrem desta doença há alguns anos, é fundamental a realização de exames de rotina e rastreio do cancro do cólon e reto.

Mulher a tomar medicamento para a doença de Crohn

A medicação para o tratamento

Aminossalicilatos

Utilizados essencialmente no tratamento da inflamação intestinal do intestino grosso e no alívio dos sintomas. São tomados por via oral.

Corticosteróides

Os corticosteróides, tais como a prednisolona são tomados por via oral e têm como principal intuito terapêutico reduzir a inflamação, aliviar a dor e sensibilidade abdominal e diarreia. Este é um tratamento utilizado sobretudo em crises súbitas, para melhoria dos sintomas, mas o seu uso deverá ser interrompido assim que possível, devido aos seus efeitos colaterais.

Imunomoduladores

Neste grupo específico de medicação direcionada ao sistema imunitário, encontram-se:

  • Azatioprina e Mercaptopurina: mais frequentemente utilizados. Tem como objetivo diminuir a resposta do sistema imunitário. São administrados por via oral;
  • Metotrexato: utilizado sobretudo em pacientes que não toleram corticosteróides, Azatioprina ou Mercaptopurina. Administrados por via endovenosa ou por via oral;
  • Ciclosporina: é geralmente utilizado em doses elevadas, sobretudo com o intuito de tratar as fístulas que possam surgir. É administrado por via endovenosa e o seu uso deve ser por curto período devido aos efeitos secundários.

Agentes biológicos

Outro grupo de medicamentos moduladores do sistema imunitário, que vieram revolucionar mais recentemente o tratamento desta doença. Fazem parte deste grupo específico:

  • Infliximab: derivado dos anticorpos monoclonais, modula a ação do sistema imunitário. Utilizado sobretudo em pacientes que não respondem a outras terapêuticas. É administrado por via endovenosa;
  • Adalimumab: semelhante ao infliximabe, é utilizado quando o paciente não responde a outra medicação. É administrado por via subcutânea;
  • Certolizumab: é outra opção terapêutica quando as restantes não produzem efeito. A sua administração é mensal e por via subcutânea. Os efeitos colaterais são semelhantes aos restantes agentes terapêuticos;
  • Vedolizumab e Natalizumab: são medicamentos para pessoas que apresentam doença de Crohn moderada a grave que não respondem a outros medicamentos imunomoduladores;
  • Ustequinumab: é outro tipo de agente biológico, administrado por via endovenosa ou subcutânea.

Na decisão da abordagem terapêutica, o médico terá em consideração toda a história clínica do paciente, exames, grau da doença e efeitos adversos de cada medicação.

Antibióticos e probióticos

O uso de antibióticos está indicado para o combate a infeções de origem bacteriana. Concretamente na doença de Crohn, os antibióticos mais frequentemente prescritos são a ciprofloxacina, o cefriaxone e o metronizadol.

Estes medicamento são utilizados para tratamento de abcessos e fístulas perianais e no alívio de sintomas, como a diarreia, febre e as cólicas abdominais.

Os probióticos, agentes microbianos benignos que habitam naturalmente o nosso intestino, podem ser utilizadas como adjuvantes dos outros medicamentos.

Quando se recorre à cirurgia?

A intervenção cirúrgica torna-se necessária quando ocorre obstrução intestinal ou quando os abcessos não cedem ao tratamento médico. Muitas vezes, na cirurgia, são retiradas zonas afetadas do intestino, mas este procedimento não cura a doença.

Habitualmente há recidiva na zona onde o intestino foi conectado e muitas vezes é necessária uma nova intervenção. Assim, a cirurgia é realizada apenas em casos específicos ou quando a medicação não tem o efeito desejado.

A importância do soro em casos graves

Pessoas com doença de Crohn grave ou fulminante em que os episódios de diarreia, febre ou obstrução intestinal são muito frequentes necessitam de internamento hospitalar para receberem fluidoterapia (soro) e terapia endovenosa. Assim, é possível reverter o grau de desidratação e aliviar outros sintomas e desconforto gástrico.

Pessoas que sofram regularmente de perdas de sangue por via retal, podem necessitar de transfusões sanguíneas ou medicação (ferro) para reverter uma possível anemia.

Complicações associadas à doença de Crohn

Problemas como abcessos e fissuras anais são muito frequentes nesta doença. No entanto, quando estamos perante casos graves ou fulminantes da doença, as complicações associadas podem incluir:

  • Obstrução intestinal;
  • Abcessos no abdómen;
  • Ruptura (perfuração) do intestino;
  • Fístulas (comunicação anormal entre o intestino, pele e outros órgãos);
  • Cancro do cólon e reto (após vários anos de doença, o risco de desenvolver cancro aumenta).

Megacólon tóxico

É uma complicação rara, mas bastante grave. O megacólon tóxico surge quando a doença de Crohn afeta consideravelmente o intestino grosso.

Nesta situação específica, o intestino interrompe as suas contrações fisiológicas e dilata-se, podendo resultar em peritonite, uma inflamação do peritoneu. Na maioria dos casos, os pacientes necessitam de intervenção cirúrgica para reverter esta condição.

A Doença de Crohn precisa de cuidados alimentares?

Embora não exista evidência científica que comprove o efeito que uma determinada dieta tenha na inflamação associada à doença de Crohn, quando iniciado o tratamento, é comum adotarem-se alguns cuidados alimentares.

Estes cuidados visam o controlo de alguns dos sintomas e a melhoria da qualidade de vida dos pacientes.

Assim, regra geral, é aconselhado:

  • Reduzir o consumo de gorduras;
  • Reduzir o consumo de açúcar e adoçantes;
  • Optar por carnes magras e peixe;
  • Fracionar as refeições (5 a 6 refeições por dia);
  • Comer devagar, mastigando e saboreando os alimentos;
  • Aumentar a hidratação (mínimo 2l de água por dia) preferencialmente fora das refeições;
  • Evitar alimentos ricos em fibra, uma vez que aumentam o trabalho do intestino;
  • Evitar alimentos muito condimentados;
  • Suplementos alimentares apenas em casos específicos de má absorção de nutrientes e quando prescritos pelo médico.

Fazer o despiste de alimentos que podem causar reação (como diarreias recorrentes) também é essencial para o controlo dos sintomas da doença.

Assim, é fundamental consultar o seu médico e nutricionista para que o acompanhamento seja personalizado e adequado ao caso em questão.

Conclusão

A doença de Crohn é uma doença séria e que deve ser diagnosticada e tratada atempadamente. É importante estar atento aos sinais que o seu corpo lhe dá, principalmente se possui antecedentes familiares desta doença.

Embora não exista cura, os sintomas da doença de Crohn podem ser controlados através de uma adaptação alimentar de forma a melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

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+ Fontes

  1. Crohn’s & Colits UK (2016). Acedido a 2 de Dezembro de 2020. Disponível em: https://www.crohnsandcolitis.org.uk/about-crohns-and-colitis/publications/crohns-disease
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