Quando a exposição solar é insuficiente, a vitamina D tem que ser obtida através da alimentação ou de suplementos. Mas, o que é que está em causa quando há baixos níveis desta vitamina?

A vitamina D é uma vitamina lipossolúvel, o que significa que apenas pode ser dissolvida em gorduras e óleos e, por isso, pode ser armazenada no organismo durante grandes períodos de tempo.

Existem dois tipos distintos de vitamina D, a vitamina D3 ou colecalciferol, encontrada em alimentos de origem vegetal como pescado gordo e gema de ovo e a vitamina D2 ou ergocalciferol, naturalmente presente em algumas plantas e fungos como cogumelos1.

Das duas, a vitamina D3 é a mais eficaz no restabelecimento das concentrações plasmáticas quando estas estão baixas2.

Quais são as funções da vitamina D?

Esta vitamina necessita de ser convertida na sua forma ativa e este processo envolve duas reações distintas, uma no fígado e outra nos rins3, 4.

Quando na sua forma ativa, o calcitriol, a vitamina D liga-se aos seus recetores espalhados por todas as partes do corpo, afetando o comportamento de várias células ligadas à saúde óssea5.

No entanto, esta não é a única função da vitamina D e vários estudos confirmam o seu papel no sistema imunitário6.

Esta vitamina atua então a nível ósseo, aumentando a libertação de fósforo e cálcio para a manutenção dos valores normais, a nível renal com a estimulação da reabsorção de cálcio; e também no intestino, controlando a absorção intestinal de cálcio e fósforo.

Alimentos ricos em vitamina D

Fontes de vitamina D

A vitamina D é produzida a partir do colesterol, na pele, após exposição aos raios solares ultravioleta B7. Assim sendo, as pessoas que vivem em zonas com abundância de sol obtêm toda a vitamina D necessária apenas com exposição solar algumas vezes por semana.

A situação é diferente para aqueles que habitam zonas com maiores latitudes, onde os dias são naturalmente mais curtos e frequentemente mais frios, impedindo a exposição solar eficaz e, nesses casos, a suplementação pode ser necessária.

Em relação às fontes alimentares e embora o pescado gordo como salmão, arenque, atum e sardinha sejam fontes decentes de vitamina D, para obter as doses diárias recomendadas, deverão ser ingeridos quase todos os dias, o que no geral e na prática não se verifica.

A única fonte excelente de vitamina D é o óleo de fígado de peixe, como o bacalhau, que numa simples colher de sopa contém mais do dobro da dose diária recomendada de ingestão8:

Alimento Vitamina D % DRI
Óleo de fígado de bacalhau, 1 c. sopa (15 ml) 1,360 IU / 34 mcg 227%
Salmão, cozinhado (85 g) 447 IU / 11 mcg 75%
Atum em água, (85 g) 154 IU / 4 mcg 26%
Fígado de vaca, (85 g) 42 IU / 1 mcg 7%
1 ovo grande 41 IU / 1 mcg 7%

Para além destes, os produtos lácteos, cereais e sumos de laranja são já fortificados e podem contribuir para equilibrar os valores plasmáticos de vitamina D9 .

Consequências do défice de vitamina D para a saúde

A febre da pesquisa e prescrição de vitamina D teve o seu início numa série de indícios de que as pessoas com baixos níveis séricos apresentavam maior risco de doença cardiovascular, diabetes, cancro, demência e doenças autoimunes como a esclerose múltipla10.

Para além disso, foi também sugerido que a carência em vitamina D estava associada a uma menor esperança média de vida na população geral e nos doentes críticos11, 12, 13.

Estas preocupações e possíveis relações até podem fazer algum sentido, a partir do momento em que passamos mais tempo em ambientes fechados e somos recomendados a minimizar a exposição solar no sentido de reduzir o risco de cancro da pele.

No entanto, estas relações não se verificam, pelo menos da forma como foram comunicadas. Baixos níveis de vitamina D que outrora foram associados ao aparecimento de várias doenças como a doença cardiovascular, têm vindo a ser refutados com ensaios clínicos14.

Níveis de vitamina D considerados normais e suplementação

Geralmente, níveis séricos acima dos 20 ng/ml são considerados saudáveis, mas muitos profissionais de saúde consideram que a carência persiste abaixo dos 30 ng/dL 15.

Na verdade, um artigo publicado recentemente refere que embora a medição dos níveis e suplementação com vitamina D seja comum, poucos são os benefícios demonstrados para a saúde, salvo em casos específicos16.

De acordo com o trabalho, embora valores menores que 12 ng/dL reflitam uma ingestão inadequada de vitamina D, níveis superiores a 20 ng/dL são mais do que adequados para 97,5% da população geral.

No que diz respeito ao impacto nas doenças crónicas e esperança média de vida, nada nos ensaios clínicos mais recentes e meta-análises parece apontar para o facto de os níveis séricos de vitamina D poderem reduzir esse risco. O mesmo se verifica no risco de fraturas em idosos na comunidade17, 18, 19.

Assim, os baixos níveis de vitamina D são, acima de tudo, um marcador de doença e não um fator de risco para o aparecimento de doenças 20.

Cápsulas de vitamina D

Quando é importante suplementar

A deteção da carência e a possível suplementação em vitamina D apenas está recomendada em doentes de alto risco, como por exemplo doentes com osteoporose, doença renal crónica, síndromes de malabsorção, obesos e que façam tratamento crónico com corticosteroides 16.

Quais as necessidades diárias de vitamina D?

Como referido anteriormente, concentrações sanguíneas menores que 12 ng/dL refletem uma ingestão inadequada de vitamina D, mas níveis superiores a 20 ng/dL são mais do que adequados para quase toda a gente. A dose diária recomendada de ingestão de vitamina D é8 :

  • 400 IU (10 mcg): crianças entre os 0 e 12 meses;
  • 600 IU (15 mcg): crianças e adultos de 1 a 70 anos;
  • 800 IU (20 mcg): idosos com mais de 70 anos, grávidas e lactantes.

Quanto à toxicidade, esta existe mas é bastante rara. De acordo com a Academia Norte Americana de Medicina, o limite superior de segurança está fixo nas 4,000 IU (100 mcg) por dia21.

No entanto, a ausência de toxicidade em ensaios clínicos realizados em adultos com doses iguais ou superiores a 250 mcg/d (10,000 IU de vitamina D3) faz com que este valor possa ser utilizado como limite superior para ingestão diária de vitamina D22.

Os principais sintomas de toxicidade incluem confusão mental, tonturas, depressão, vómitos, obstipação, dor abdominal e hipertensão arterial23.

Conclusão

A importância da vitamina D nos processos de crescimento e desenvolvimento é indiscutível. Neste sentido, alguns trabalhos recentes apontam para uma série de riscos para a saúde que concentrações séricas baixas desta vitamina podem acarretar.

Estes dados deram origem a uma febre de pesquisa e prescrição desta vitamina. No entanto, estes factos têm vindo a ser cada vez mais refutados e, neste momento, mais do que um fator de risco para o aparecimento de doenças, baixos níveis de vitamina D estão associados à presença de doença.

Na verdade, apenas em alguns casos a pesquisa e prescrição de vitamina D é essencial, e esses casos não incluem dor crónica, osteorartrite, cancro, doenças cardiovasculares ou a tentativa de prolongar a esperança média de vida.

A carência desta vitamina é bastante comum, mas desde que não esteja grávida ou não sofra de doença renal crónica, osteoporose ou obesidade, os seus níveis podem ser facilmente repostos através da exposição solar controlada e da ingestão de alimentos ricos em vitamina D.

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+ Fontes

  1. Tripkovic, L., et. al. (2012). Comparison of vitamin D2 and vitamin D3 supplementation in raising serum 25-hydroxyvitamin D status: a systematic review and meta-analysis. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3349454/
  2. Trang HM, et. al. (1998). Evidence that vitamin D3 increases serum 25-hydroxyvitamin D more efficiently than does vitamin D2. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9771862/
  3. Norman AW. (2008). From vitamin D to hormone D: fundamentals of the vitamin D endocrine system essential for good health. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18689389/
  4. Christakos S, et. al. (2010). Vitamin D: metabolism. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20511049/
  5. DeLuca HF. (1980). The control of calcium and phosphorus metabolism by the vitamin D endocrine system. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7015957/
  6. Lappe, J. M. (2011). The Role of Vitamin D in Human Health: A Paradigm Shift. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/1533210110392952
  7. Bogh MK, et. al. (2011). Vitamin D production depends on ultraviolet-B dose but not on dose rate: a randomized controlled trial. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21158934/
  8. NIH. (2020). Vitamin D. Disponível em: https://ods.od.nih.gov/factsheets/VitaminD-HealthProfessional/
  9. Calvo MS, Whiting SJ, Barton CN. (2004). Vitamin D fortification in the United States and Canada: current status and data needs. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15585792/
  10. Holick MF, Chen TC. (2008). Vitamin D deficiency: a worldwide problem with health consequences. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18400738/
  11. Zittermann A, Prokop S. (2014). The role of vitamin D for cardiovascular disease and overall mortality. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25207362/
  12. Braun A, Chang D, Mahadevappa K, et al. (2011). Association of low serum 25-hydroxyvitamin D levels and mortality in the critically ill. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21242800/
  13. Pilz S, Dobnig H, Tomaschitz A, et al. (2012). Low 25-hydroxyvitamin D is associated with increased mortality in female nursing home residents. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22319037/
  14. Scragg R, Stewart AW, Waayer D, et al. (2017). Effect of Monthly High-Dose Vitamin D Supplementation on Cardiovascular Disease in the Vitamin D Assessment Study : A Randomized Clinical Trial. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28384800/
  15. Manson JE, et. al. (2016). Vitamin D Deficiency – Is There Really a Pandemic?. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27959647/
  16. LeFevre, ML. & LeFevre, NM. (2018). Vitamin D Screening and Supplementation in Community-Dwelling Adults: Common Questions and Answers. Disponível em: https://www.aafp.org/afp/2018/0215/p254.html
  17. LeFevre ML; U.S. Preventive Services Task Force. (2015). Screening for vitamin D deficiency in adults: U.S. Preventive Services Task Force recommendation statement. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25419853/
  18. Moyer VA; U.S. Preventive Services Task Force. (2014). Vitamin, mineral, and multivitamin supplements for the primary prevention of cardiovascular disease and cancer: U.S. Preventive services Task Force recommendation statement. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24566474/
  19. Moyer VA; U.S. Preventive Services Task Force. (2013). Vitamin D and calcium supplementation to prevent fractures in adults: U.S. Preventive Services Task Force recommendation statement. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23440163/
  20. Autier, P., et. al. (2014). Vitamin D status and ill health: a systematic review. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/landia/article/PIIS2213-8587(13)70165-7/fulltext
  21. Institute of Medicine (US) Committee to Review Dietary Reference Intakes for Vitamin D and Calcium. (2011). Dietary Reference Intakes for Vitamin D and Calcium. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK56070/
  22. Hathcock JN, et. al. (2007). Risk assessment for vitamin D. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17209171/
  23. Marcinowska-Suchowierska, E., et. al. (2018). Vitamin D Toxicity–A Clinical Perspective. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6158375/
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